quarta-feira, 18 de maio de 2011

Eu quero a ferida que pulsa na tua cabeça e não consegue parar de...

A janela aberta revela fotografias cinzentas
Os pensamentos em fumaça sobem até o telhado
Os morcegos voltam ao seu covil
A noite se despede e da lugar a enfadonha manhã
Com seu sorriso plástico e velhinhos caminhando com sua saúde rastejante

Observe os 80 anos em boa forma
E veja refletida sua doença de 20 e tantos anos
Enxergue dissecada a sua frágil e erronea existência
Tudo exposto por uma caminhada geriatrica
A cama é meu imã e me suga a vontade
Fico ali magnetizado pelo ócio
Em um sedentarismo hipnótico
E o sono a muito tempo se ajoelhou diante das idéias nocivas

Eu costumava brincar com as pedras no jardim
E elas se tornavam naves
E elas eram os meus monstros assustadores
E com elas eu imitava a matéria no jornal
Construindo e derrubando o meu muro de Berlim
As pedras eram amigos tão francos
Podiam ser alienígenas em suas naves espaciais
E com elas eu podia me esconder, perdido no espaço
As pedras rolavam comigo
Mas eu nunca imaginaria que um dia elas iriam parar em tantos cachimbos

O passado turvo e delirante as vezes parece um carro desgovernado
Ladeira abaixo vou de encontro a lembranças de um outro eu
Você já se sentiu um desconhecido?
As coisas que aconteceram talvez não acontecessem mais ou até aconteceriam
De maneira diferente?
Não importa! já era
Foi assim quando bebi minha prova final no segundo grau
Pra que fazer uma avaliação quando você sabe que só vai assinar o nome?
Eu esfrego a minha ignorância supletiva na sua cara acadêmica
Minha incapacidade no seu futuro promissor
Por que?
Porque eu sei aonde vamos parar
Mas é melhor se fazer de cego e ignorar o óbvio
É assim que seus diplomas agem
Minha falácia é tediosa pra sua cultura?
No seu cu(lto) arsenal de meias verdades
Existe uma completa mentira

Tão inteira, assim como eu
Como você! vazio como balão em fim de festa
Sou como essas crianças que destroçam brinquedos
Que ficam nos cantos, encolhidas na parede
Esperando a hora de cuspir insultos
Aguardando a hora de correr chutando tudo
Alheio a tudo
Um homicida autista ateando fogo no seu parque de diversões

Eu tentei aprender a nadar
Mas tem gente que quer te afogar em porra
Eu nunca gostei de números
Eles sempre foram excludentes e falsos
As únicas notas que me importaram eram musicais
Até que um dia aprendi que elas não valiam nada também

Nunca fui músico, muito menos poeta
Não sonho em ser escritor porque catar lixo me soa mais atraente
Não existe arte que transcenda o trabalho de um coveiro
Cavei covas pra todos os meus sonhos
Pra tudo que acreditava e amava
E vocês me entregaram a pá
Cavei fundo e nunca parei
Mas ainda olho la pra cima e vejo o que quero

Pouca me importa os sonhos fálicos
Dos delírios de rock star cercado por putas e drogas
Eu nunca precisei de música pra fazer barulho ou sexo
Nem nunca precisei colocar tudo isso numa santissima trindade
Não sou bom em lidar com o sagrado
Não posso te dar a benção de (mais um) outro ser superior
Seja ele qual for
Mas posso dividir minhas virtudes e falhas e me educar com vocês
Não tenho uma vida que te interesse pra roteiro de filme ou algum livro idiota

Todas as linhas te fazem algum sentido? você se identifica?
Claro que não! você quer sua dor representada por palavras alheias
Eu não vou mais me importar, assim como você também não da a minima
A vida é cruel meu caro
Eu não tenho uma boa história pra você
Mas tenho um amor engatilhado
E passamos a noite rodando o tambor e apertando o gatilho
Estourando nossas cabeças nesse mundo perdido
Só temos uma bala mas ela é suficiente
Nossa roleta russa vai seguindo em frente
Mas olhem pra tudo que arruinaram
Só agora elas tem algum valor
Mas restou o teu lamento que não vale porra nenhuma

Não conheço ninguém que deixe o valor do bolso cheio pra depois
Mas conheço precisa de um funeral pra valorizar
Os "coadjuvantes" da sua vida
E lhe jogam flores e prestam tributos
Homenagens post-mortem geradas por sentimentos embalsamados
Amar deveria ser um cortante ataque revolucionário gerando constantes mudanças
Mas ainda existe quem insista em conservar seu museu de nostalgias empoeiradas
A morte deveria adubar as vidas mas estagna em auto-flagelação ou indiferença covarde

As paranóias ainda me encurralam em becos
Estupram toda confiança que um dia tive na boa vontade humana
Desacreditam todo o conceito de amizade que um dia tanto me importou
Descontruindo os abraços e apertos de mãos mais sinceros que já partilhei
Mas não vivemos numa porra de santa ceia
Partilhar o pão pode ser uma grande traição em alguns casos
Ou uma boa ofensa
Ou uma utopia anti egoísmo ditatorial
O caos é o regente de todos
A perfeição é maior falha que ingenuamente se pode acreditar


Viver sem suor
Viver sem sangue
viver sem lágrimas
É morrer uma vida extensa e tediosa
Cada segundo cortado na minha pele não me torna um mártir
Abra as mãos e faça suas chagas
Seja seu cristo ou espere alguém ser por você
Não importa a fé ou a falta dela
A fé move montanhas mas não consegue se mover sozinha
A fé precisa de você como muleta
É um caminho em comunhão
Sou devoto da vida
Assim como todos
Mas cada um da o nome que quer pra isso

Eu me observo e vejo as idéias flutuarem fora do corpo
Olho pra baixo e elas descem da janela e correm pro banheiro
Dão um grande mergulho na privada
E eu puxo a descarga
Jogo um cigarro e acendo outro
Olho pro céu e penso nas crianças indo pro colégio
E olho pra minha cama vazia e penso em outra cama
Sinto outro quarto dentro de mim
Os pássaros já não cantam mais
O dia nublado se mescla a fumaça dos carros
E o ônibus pede parada aos meus pensamentos
Eles seguem juntos tocando uma guitarra em fuzz naseante
Acompanhado outra prova de fogo da Wanderléia
A prova de envelhecer vivo
Antes que algo muito além da idade te mate
O mundo tenta acabar contigo antes que chegue seu fim
E toda citação é burra assim como a falta dela
Que todo ícone se enfie no cu
E que meu sono chegue
Pois colocaria ele num poster na parede
E iria me recolher ausente camarada
Para a cama vazia e dormir pensando
No quarto que está longe de mim
Por enquanto...

2 comentários:

MADALENA MOOG disse...

"A fé move montanhas mas não consegue se mover sozinha
A fé precisa de você como muleta..."

Legal a inversão.
Poema bemmm "carta de desencanto como o mundo e despedida suicida", hehehe... Quando eu ficar rico, vou publicar um livro em parceria, e vc será um deles... o outro sem noção será o Ícaro... hehe...

Catarina disse...

adorei vários versos. está maravilhoso, continue =)